Os grandes discos da década de 1990

Luís Gustavo Melo

Admitam as pessoas ou não, um dado recorrente na experiência do pop, é que sempre carregamos a certeza (ou a ilusão) de que a década que vivemos os melhores anos da nossa juventude foi o momento onde se deu o ápice da música e da cultura em geral. O que é bastante natural, pois isso reflete a vivência de cada um e denota nossa fidelidade ao que aprendemos amar em determinado período de nossas vidas; tem a ver com memória afetiva. Mas admito que às vezes fico nervoso quando ouço alguém dizer que os anos 1990 foram uma bela droga, que bom mesmo foram os 80, os 70… E tudo isso, claro, é bastante subjetivo. A verdade é que todas as décadas tiveram seus altos e baixos – até a de 60, que considero o momento mais iluminado da cultura popular do último século. Saindo do pântano da subjetividade, me parece ao menos justo considerar que os anos 90 foram possivelmente a última grande época da música jovem, especialmente a primeira metade da década.

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Não se metam com… Thee Dirty Rats

Luís Gustavo Melo

Tudo nesse mundo é uma questão de perspectiva. Até no underground, onde há quem comece uma banda já imaginando como vai sair na foto do artigo de menos de meia página da Rolling Stone; e onde existem também aqueles que entram nessa por pura inquietação criativa – dispostos a ousar, imprimir um estilo, dar saltos no escuro. Ou não seria essa a razão do duo Thee Dirty Rats – formado por Luis Tissot (vocal e cigar box) e Fernando Hitman (bateria) – ter construído seus próprios instrumentos com pedaços de sucata, para obter o som que pretendia e começar uma das mais insólitas (e originais) formações do cenário independente atual?

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Harvey Kurtzman e a arte de deixar as pessoas deliberadamente malucas

Luís Gustavo Melo

Numa lista séria dos artistas que mais influenciaram a cultura pop na segunda metade do século 20, o nome do americano Harvey Kurtzman certamente apareceria em posição de destaque. Em 50 anos de carreira, o quadrinista produziu conteúdo para os mais diversos gêneros no ramo da arte sequencial, mas foi no humor que ele ficou mundialmente conhecido. Como criador da revista Mad, Kurtzman causou furor no mercado editorial dos Estados Unidos em pleno período de trevas do Macartismo, ao inaugurar um tipo de humor absurdo que ridicularizava virtualmente tudo que a sociedade norte-americana julgava mais sagrado – influenciando desde publicações anárquicas e igualmente audaciosas como a National Lampoon a programas como o Saturday Night Live e desenhos animados como o Simpsons e o Family Guy.

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Iggy and the Stooges: Raw Power (1973)

Luís Gustavo Melo

Não fosse o fato de ser uma das mais originais e influentes bandas da história do rock, os Stooges ainda valeriam pela lenda. Cria da mesma cena musical que na segunda metade dos anos 60 deu ao mundo formações como MC5, Alice Cooper e Ted Nugent e seus Amboy Dukes, o grupo liderado pelo alucinado cantor Iggy Pop – Ron Asheton (guitarra), Dave Alexander (baixo) e Scott Asheton (bateria) – chegou barbarizando o circuito de casas noturnas de Detroit, em meados de 1967, como uma espécie de antítese do sonho hippie, apresentando já naquela época uma postura violenta e provocativa que prenunciava o punk da década seguinte.

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Das garagens de Tacoma, The Wailers

Luís Gustavo Melo

Do obscuro cenário de uma cidade nos cafundós do estado norte-americano de Washington, vem o quinteto a quem alguns dos mais renomados críticos de rock apontam como a banda de garagem primordial. Formado em Tacoma – cerca de 50 km a sudoeste de Seattle –, os Wailers praticamente criaram o som que ainda hoje caracteriza o rock feito no Noroeste do Pacífico, e inspira gerações de artistas e bandas daquela região: dos Sonics ao Mudhoney, dos Young Fresh Fellows ao Mono Men. Como os punks que despontaram nos Estados Unidos e na Inglaterra quase duas décadas depois, os Wailers não tinham ideia de que estavam fazendo história; e foi por puro instinto que, ainda no comecinho dos anos 1960, o baixista John “Buck” Ormsby montou sua própria gravadora para lançar os discos do grupo, antecipando em anos a ética do-it-yourself.

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Do Velvet aos Voidoids: uma história do pré-punk norte-americano da década de 70

Luís Gustavo Melo

Aquele seu amigo fã do Procol Harum certamente discordará, mas a verdade é que a explosão do movimento punk na Inglaterra ainda hoje representa um dos capítulos mais importantes da história do rock. Foi naquele período que se deu o que talvez tenha sido a última grande revolução estética e comportamental ocorrida no universo da música pop. Nunca tantos artistas, selos independentes e publicações alternativas haviam surgido com propostas tão arrojadas e com tamanha intensidade e urgência num espaço de tempo tão curto – era o poderoso conceito de participação ativa do punk, o famoso do-it-yourself, sendo posto em prática da maneira mais crua e eficaz, para combater a apatia e a inocuidade do cenário musical vigente.

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The Gun Club: Fire of Love (1981)

Luís Gustavo Melo

O impacto continua o mesmo após quase quatro décadas. Na era do pop sintetizado dos afetadíssimos neorromânticos, quatro dementes resolveram investir num estilo que fundia a energia primal do garage rock, com a influência do blues ancestral da América profunda e uma carga dramática próxima da verve literária do poeta Jim Morrison. Surgido em meio a efervescência da cena punk de Los Angeles, o Gun Club do carismático vocalista Jeffrey Lee Pierce – jovem artista a quem o cineasta alemão Wim Wenders reputou como “um dos maiores blues singers de todos os tempos” – foi além da ortodoxia do hardcore, buscando inspiração para seu punk de garagem despojado na música negra do Delta do Mississippi e no country ‘n’ western de Hank Williams, adicionando a essa inusitada equação, letras que davam dimensão às angustias de personagens que vivem no limite.

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The Dirty Coal Train: de volta à Garageland

Luís Gustavo Melo

Combinando a lubricidade do rhythm ‘n’ blues com o punch do rock de garagem, os portugueses do The Dirty Coal Train redimensionam o legado do lendário Link Wray, firmando-se como uma das bandas mais virulentas do cenário independente atual – e o negócio desse pessoal de Viseu é detonar mesmo. Com os vocalistas e guitarristas Ricardo Ramos e Beatriz Rodrigues como únicos membros constantes, o grupo é uma daquelas formações que ao vivo despacha um set visceral, com a paixão e a entrega de quem parece ter plena convicção de estar realizando o último show de rock, antes da hecatombe que vai mandar a porcaria do planeta inteiro de volta para Idade da Pedra. Algo capaz de causar frisson até nos mais céticos fãs do Cramps, do Dead Moon e do Honeymoon Killers.

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Pussy Galore: White Noise, Right Now!

Luís Gustavo Melo

Audaciosos e selvagens, eles chegaram para nos mostrar que ainda era possível extrair novidades do bom e velho garage rock. Surgidos em meio a cena hardcore de Washington DC, mas completamente à parte dela, o Pussy Galore foi a experiência punk mais radical a despontar no cenário da música independente e uma das mais intensas, irônicas e desrespeitosas bandas do underground norte-americano dos anos 80. Suas apresentações causavam choque até em audiências que já experimentaram de tudo nesse mundo: o público nova-iorquino. Como Lou Reed à frente do Velvet Underground, na Nova York dos anos 60, Jon Spencer e sua turma exercitaram com maestria a arte da provocação; e mesmo forjando uma música tão barulhenta, desobediente e grosseira, o grupo se tornou referência como uma das formações mais seminais de sua geração.

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Convite ao pesadelo: o top dez do Terror

Luís Gustavo Melo

Casas mal-assombradas, possessões demoníacas, entidades inumanas, criancinhas mutantes assassinas, maníacos com motosserras, criaturas repulsivas materializadas a partir do pânico reprimido. Não há limites para a criatividade quando o propósito é infligir medo – e essa, ao que parece, é uma tradição que vem de muito longe, já que desde os primórdios da civilização, a humanidade experimenta um misto de pavor e fascínio por lendas de monstros e espíritos malignos que, pela simples evocação, deixava muita gente de cabelo em pé. As histórias de horror sempre fizeram parte do imaginário popular e possuem íntima ligação com o cinema desde suas origens, quando as primeiras narrativas de monstros e temas sobrenaturais foram adaptadas de livros de Bram Stoker, Mary Shelley e do mestre Edgar Allan Poe.

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