The Dirty Coal Train: de volta à Garageland

Luís Gustavo Melo

Combinando a lubricidade e os grooves diabólicos do rhythm ‘n’ blues com a energia do garage rock, os portugueses do The Dirty Coal Train redimensionam o legado do lendário Link Wray, firmando-se como uma das bandas mais virulentas do cenário independente atual – e o negócio desse pessoal de Viseu é detonar mesmo. Com os vocalistas e guitarristas Ricardo Ramos e Beatriz Rodrigues como únicos membros constantes, o grupo é uma daquelas formações que ao vivo despacha um set visceral, com a paixão e a entrega de quem parece ter plena convicção de estar realizando o último show de rock, antes da hecatombe que vai mandar a porcaria do planeta inteiro de volta para Idade da Pedra. Algo capaz de causar frisson até nos mais céticos fãs do Cramps, do Dead Moon e do Honeymoon Killers.

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Pussy Galore: White Noise, Right Now!

Luís Gustavo Melo

Audaciosos e selvagens, eles chegaram para nos mostrar que ainda era possível extrair novidades do bom e velho garage rock. Surgidos em meio a cena hardcore de Washington DC, mas completamente à parte dela, o Pussy Galore foi a experiência punk mais radical a despontar no cenário da música independente e uma das mais intensas, irônicas e desrespeitosas bandas do underground norte-americano dos anos 80. Suas apresentações causavam choque até em audiências que já experimentaram de tudo nesse mundo: o público nova-iorquino. Como Lou Reed à frente do Velvet Underground, na Nova York dos anos 60, Jon Spencer e sua turma exercitaram com maestria a arte da provocação; e mesmo forjando uma música tão barulhenta, desobediente e grosseira, o grupo se tornou referência como uma das formações mais seminais de sua geração.

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Convite ao pesadelo: o top dez do Terror

Luís Gustavo Melo

Casas mal-assombradas, possessões demoníacas, entidades inumanas, criancinhas mutantes assassinas, maníacos com motosserras, criaturas repulsivas materializadas a partir do pânico reprimido. Não há limites para a criatividade quando o propósito é infligir medo – e essa, ao que parece, é uma tradição que vem de muito longe, já que desde os primórdios da civilização, a humanidade experimenta um misto de pavor e fascínio por lendas de monstros e espíritos malignos que, pela simples evocação, deixava muita gente de cabelo em pé. As histórias de horror sempre fizeram parte do imaginário popular e possuem íntima ligação com o cinema desde suas origens, quando as primeiras narrativas de monstros e temas sobrenaturais foram adaptadas de livros de Bram Stoker, Mary Shelley e do mestre Edgar Allan Poe.

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Destroy All Monsters: Pânico em Detroit

Luís Gustavo Melo

Eles foram um dos segredos mais bem guardados do underground norte-americano dos anos 1970. Uma banda cujo desprezo às convenções do cenário musical de sua época manifestava-se até no nome: Destroy All Monsters. Aniquilar os dinossauros do rock… Em retrospecto, este parecia mesmo ser um dos principais objetivos desse combo mutante de garage noise. Formação mais cult que esta, impossível. Tomando como referências estéticas o drone do Velvet Underground e a demência catártica dos Stooges, o Destroy All Monsters forjou um universo musical e temático desafiador, pontuado por composições de grande impacto – como em “November 22nd 1963”, clássico do grupo no qual a cantora Niagara invoca com desconcertante ironia o episódio do assassinato do presidente John F. Kennedy.

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Gil Scott-Heron: últimas transmissões

Luís Gustavo Melo

No verão de 1970, Gil Scott-Heron tinha apenas 21 anos e havia acabado de publicar um livro de poesia e um surpreendente romance ambientado nas ruas do Harlem, quando entrou num pequeno estúdio em Nova York para gravar ao vivo seu primeiro álbum com o produtor Bob Thiele, o homem que supervisionou a criação de seu disco favorito, A Love Supreme, registro seminal do mítico John Coltrane. Com tudo pronto para começar a sessão, Heron dirigiu algumas palavras à restrita plateia acomodada num espaço adjacente do estúdio e deu início a performance, disparando uma sequência ininterrupta de versos ritmados com críticas incisivas ao consumismo, ao jogo sujo da mídia, às aspirações medíocres da classe média e à figuras políticas como Richard Nixon e ícones banais da cultura branca norte-americana.

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De volta ao vale das criaturas flamejantes

Luís Gustavo Melo

Há certas coisas que, se analisadas com distanciamento, simplesmente fazem a gente se perguntar como podem ter acontecido de fato. De outra forma, quem em sã consciência seria capaz de imaginar que um caipirão do Mississipi, trabalhando como motorista para uma companhia de material para serviços de eletricidade e de passagem por um pequeno estúdio de gravação em Memphis, daria início a um dos maiores fenômenos da cultura ocidental do último século? Pois o rock ‘n’ roll surgiu exatamente assim; de um desses rasgos de intuição que muito raramente acontecem e, quando ocorrem, são capazes de mudar o mundo.

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Riot on Sunset Strip: o garage rock nos exploitation movies

Luís Gustavo Melo

Assim como as bandas de garagem que proliferaram por toda a América, os filmes psicodélicos dos anos 1960 representam um importante estrato da cultura pop daquele período. Com a urgência e o despojamento de um inspirado álbum de punk rock, esses longas produzidos (em sua maioria) pela lendária American International Pictures, exploravam com incrível rapidez e eficácia os temas mais controvertidos do momento para entregar à audiência algumas das obras audiovisuais mais apelativas, despirocadas e divertidas do cinema comercial norte-americano. Tudo produzido da maneira mais suja, rápida e barata que se possa imaginar. Nessa leva de filmes anárquicos realizados a toque de caixa pela AIP, um dos mais cultuados é o clássico Riot on Sunset Strip, conhecido por aqui como Os Transviados de Sunset Strip, que tornou-se célebre por imortalizar performances matadoras de grupos como Chocolate Watch Band e The Standells.

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Os casais mais ‘singelos’ do rock ‘n’ roll

Luís Gustavo Melo

Nos longínquos anos 50, quando a ‘juventude transviada’ do pós-guerra dividia-se entre maçãs do amor e visões apocalípticas de cogumelos atômicos povoando os mais negros pesadelos, a ideia de que cada minuto poderia ser o último era comum a milhares de jovens que viam nos trejeitos do ator James Dean e na urgência dos primeiros rocks uma forma de reagir à caretice de seus pais e às convenções impostas pela sociedade. A velha máxima do “viva rápido, morra jovem e deixe um belo cadáver”, tão largamente associada à figura de Dean e à atitude desregrada dos primeiros ídolos da ‘infância’ do rock ‘n’ roll, passou a fazer parte do imaginário da garotada daquela geração.

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Link Wray & The Wraymen (1960)

Luís Gustavo Melo

Glover Park, Washington, dezembro de 1958. Numa pequena casa noturna no subúrbio de DC, um guitarrista com um topete impossível no maior estilo greasers entra em cena todo de negro, trajando uma jaqueta de couro e empunhando uma Danelectro Longhorn. Ele sobe ao palco acompanhado por outros três músicos que vestem a mesma persona de delinquentes juvenis irrecuperáveis, dá uma boa olhada na plateia e manda um acorde sujo carregado de distorção e microfonia. Seus parceiros logo o acompanham investindo numa massa compacta de som e fúria, ora executada em ritmo veloz, ora embalada por uma levada lenta e hipnótica. Com um contratado assinado com o selo Epic, da CBS, Link Wray e seus Wraymen estavam com tudo, prontos para adicionar o toque de subversão musical que faltava à rebeldia ingênua do rock ‘n’ roll, no finalzinho de sua primeira fase.

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The Courettes: direto ao básico

Luís Gustavo Melo

Uma guitarra Billy Childish Cadillac rasgando o amplificador com vontade e uma bateria selvagem e criativa, são tudo o que o duo The Courettes precisa para mandar um rock ‘n’ roll energético super estiloso e conquistar centenas de seguidores mundo afora. Sem dúvida, uma das boas surpresas do cenário garageiro atual. Formado pela ex-baixista do Autoramas Flávia Couri (agora na guitarra e nos vocais) e pelo baterista Martin Couri, egresso da banda dinamarquesa Columbian Neckties, o grupo está na correria há pouco mais de dois anos, mas já conta com um catálogo bem interessante de disquinhos editados em vinil por selos independentes europeus.

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